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Orquestra de Câmara da USP faz pré-temporada com repertório plural

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10 de fevereiro de 2026
in Brasil
Orquestra de Câmara da USP faz pré-temporada com repertório plural
 
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AGÊNCIA BRASIL

A Orquestra de Câmara da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (OCAM da ECA-USP) terá a pré-temporada de concertos de 2026 nesta terça-feira (10), amanhã e na quinta-feira.

As apresentações são gratuitas, no Instituto Tomie Ohtake e no Centro Cultural Camargo Guarnieri, com peças que contemplam um repertório diverso, com sons contemporâneos, clássicos e populares.

O evento é estruturado em três programas distintos: Cordas, Sopros e Percussão, e Ensemble, um grupo misto que explora diferentes formações instrumentais e linguagens.

Destaques

Nos concertos de sopro e percussão, regidos por André Bachur, a OCAM convidou a multi-artista Jéssica Gaspar para fazer uma performance da canção de sua autoria, Deus é uma Mulher Preta, que tornou-se enredo do Bloco Ókánbí, no Carnaval de Salvador em 2020.

A cantora apresenta um repertório marcado pela música afro-brasileira, que explora a vivência e as dores da população negra.

“Eu fiz essa música sem nenhuma pretensão de desenhar a ideia de Deus, mas de ressignificar o corpo de uma mulher chamada Cláudia Ferreira da Silva, que foi arrastada pela polícia do Rio de Janeiro e teve seu corpo dilacerado e filmado. Eu achei devastador a imagem dela ser lembrada nesse lugar [de violência]. Então pensei: por que não associar o corpo de uma mulher negra à figura do divino?”, explicou.

Outro destaque do programa é a homenagem ao compositor Hermeto Pascoal, um ícone da música popular brasileira e referência do gênero swing, com a estreia da obra Bruxo Campeão, composta por Carlos dos Santos, ex-aluno da OCAM e professor na Universidade Federal da Paraíba.

No grupo de cordas, obras clássicas de Aaron Copland e Benjamin Britten, grandes compositores do século 20, serão orquestradas pela harpista russa Liúba Klevtsova. O destaque da apresentação vai para a execução da obra de Claude Debussy, “Danças Sacra e Profana para Harpa e Cordas” (1904). O programa será regido por Claudia Feres.

Por fim, o grupo de Ensemble apresenta o programa Mosaico Contemporâneo, que trabalha com composições diversificadas. Com regência de Ricardo Bologna, a orquestra fará uma homenagem à vida e obra de Olivier Toni, compositor e fundador da OCAM, com o “Improviso para Violoncelo Solo” (2010).

O repertório também inclui composições de origem japonesa, como as obras Kojo No Tsuki (A Lua Sobre o Castelo em Ruínas) (1901) e Três Baladas para Hida (1977), com arranjo de Yuri Behr.

 

Repertório Plural

Na pré-temporada de concertos, a OCAM apresenta um repertório musical que explora composições além dos clássicos eruditos, algo que, algum tempo atrás, talvez não fosse possível acontecer.

O professor do departamento de música da ECA-USP e maestro da OCAM, Ricardo Bologna conta que o espaço para sons de origem latina, africana e asiática era praticamente inexistente.

“Há 30 anos, a pesquisa acadêmica de música no Brasil era, quase sempre, restrita ao estudo da música europeia ou norte-americana.”

Para Bologna, o cenário atual é bem diferente. Hoje há mais livros e artigos que abordam a música não europeia, além de vários congressos brasileiros que discutem a diversidade dentro da produção musical nacional.

“A gente vê que a pesquisa tem se expandido para além da música clássica brasileira. Tem se pesquisado a música folclórica e popular”, relata.  De acordo com Bologna, no Brasil, os temas principais dos congressos de música têm sido questões relativas à produção de música por compositores brasileiros e que fogem da chamada tradição europeia.

Para Jéssica Gaspar, a principal mudança ocorreu a partir da inserção de pessoas nas universidades que são mestres dessas linhas de pesquisa.

“A inovação está sendo esse movimento de convite para mestres que sabem toda a arquitetura da música, toda a engenharia da sua poesia e que trazem suas próprias palavras. Também é resultado da entrada de corpos [não-brancos] nas universidades.”

Contudo, a artista critica o fato de que as graduações ainda colocam a música não europeia em um “espaço étnico” à parte, ao priorizar o estudo dos clássicos e eruditos. “Essa ideia do clássico engessa toda uma célula, um povo, uma linguagem. O que é clássico agora?”

Jéssica argumenta que talvez seja a hora de repensar quais assuntos estão presentes nas bibliografias e na proposta curricular dos cursos de música. “O que vamos ensinar sobre música para quem chega agora?”, questiona.

*Estagiário da Agência Brasil sob supervisão de Odair Braz Junior


 
 
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